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Serra da Boa Viagem, Sua Excelência! A História

Será necessário recuarmos alguns milhões de anos para percebermos como surgiu aquela que é hoje conhecida como Serra da Boa Viagem. Pouparemos o leitor, no entanto, de tamanho aborrecimento pré-histórico. Assumamos simplesmente que um conjunto aleatório de movimentos tectónicos se encarregaram de formar a nossa amiga lá de cima, conferindo-lhe uns elegantes 262 metros de altura. E avancemos então no tempo, que o papel é escasso. Deixemos também as explorações de carvão (início em 1750) para outras núpcias e coloquemos o calendário no ano de 1911. E agora sim, memorize este nome: Manoel Alberto Rei.

Manoel Alberto foi Rei de apelido e Rei na forma como conduziu o processo de arborização daquilo que era, à data, e segundo palavras do próprio, que não nos atrevemos a questionar, “uma montanha árida e pedregosa, onde vegetavam a urze e o tojo”. Regente florestal na área da Figueira da Foz, assume-se como o “homem que descobriu geograficamente a Serra da Boa Viagem”, arrogância que temos o dever de desculpar sem hesitações. Rei inicia em 1911, depois de levantamento exaustivo, uma campanha pela arborização de todos os baldios do concelho. Primeiro na imprensa local e posteriormente junto da Comissão Administrativa da CMFF, facilmente fez vencer a ideia dos altos benefícios que adviriam para a Figueira da Foz. A sua força mobilizadora foi de tal ordem, que o primeiro comício sobre o tema juntou cerca de 500 pessoas sem televisão e internet no Teatro de Quiaios, num belo dia de Novembro. Ao longo dos meses seguintes, demonstrou a utilidade dos povos submeterem ao regime florestal os seus baldios e no início de 1913 lavrou-se a acta da entrega do Prazo de Santa Marinha (uma área que vai desde a casa da vela perto do Abrigo da Montanha, passa a Capela de Santo Amaro, até à Bandeira) ao regime, ressalvados os direitos, usos e costumes dos povos, para no final do mesmo ano se darem início os trabalhos de arborização da serra.

Apesar das burocracias inerentes ao processo, tudo corria sobre rodas. Mas estas histórias têm sempre um mas. E o mas desta história diz-nos que a Empresa do Cabo Mondego, concessionária da exploração do sub-solo, convenceu-se que o solo também lhe pertencia e resolveu embargar os trabalhos. Sim, parece que na altura já havia quem não fosse grande apreciador do verde. Seguiu-se uma luta que Rei apelida de violenta. Apesar de não termos conhecimento de murros e pontapés de parte a parte, envolveu ameaças e cartas anónimas. A batalha desenrolou-se na justiça. Manuel Rei colocou todos os documentos históricos em cima da mesa, onde ficamos a saber que em tempos idos, os Crúzios (frades) de Coimbra venderam por cento e sessenta mil reis o terreno do Prazo de Santa Marinha a D.Maria I, “com a condição do povo de Quiaios poder cultivar terras, apascentar gado, colher lenha e roçar mato”. A persistência de Rei (1)
revelou-se fundamental. Depois de provar inequivocamente que os terrenos pertenciam à freguesia de Quiaios, e esgotados todos os recursos dos queixosos, foi preciso esperar até Junho de 1915 para a arborização se iniciar sem entraves.

A arborização da SRB impõe-se, e se alguns retrógrados se regozijam, dizendo que ali não se semeará mais um pinhão ou plantará uma árvore, fiquem sabendo que a sementeira e plantações continuam e continuarão em benefício público.”

Entre culturas e construções, de Fevereiro de 1913 a Junho de 1924, gastaram-se 167.147$14 em 284 hectares, onde se plantaram 73 diferentes espécies, da Abies Brachyphylla à Quercus Suber, concluindo assim tão ambiciosa arborização. Passemos pois a palavra a tão importante personalidade no despoletar da história da Serra da Boa Viagem. Senhoras e senhores, Manuel Alberto Rei:

“Foi árdua e violenta a luta em que me empenhei sem desfalecimentos nem tibiezas, apesar de todas as ameaças de transferência e dos mal contidos despeitos que explodiam em cartas anónimas (…) Era um crime deixar desnudos e ao abandono aqueles terrenos tão férteis (…) E o milagre fez-se. A Serra inculta e bravia é hoje, com suas estradas amplas e com o seu soberbo revestimento florestal, um dos mais belos aprazíveis pontos de turismo que possuímos no país (…) Das sete fontes brotam águas magníficas, nascidas em grandes camadas de areia e carvão, que as filtram e tornam excelentes (…) O primeiro passo está dado. De todos os pontos de vista, dois, porém, se destacam pela riqueza das paisagens que deles se disfrutam: a Vela e a Bandeira. Do alto da Vela, olhando para poente, vemos o Oceano Atlântico; para o sul, a foz do Mondego e, em dias claros, avistam-se as Berlengas, os pinhais das Costa de Lavos, da Leirosa, do Urso e de Leiria, a povoação de Monte Real, a vila de Pombal e a cidade de Leiria. Do alto da Bandeira, para o norte, vemos o Farol de Aveiro e as dunas de Quiaios, de Cantanhede, de Mira, de Vagos e da Costa Nova; para o nascente estende-se toda a planície que vai morrer nas abas da Serra do Bussaco, avistando-se a Serra do Caramulo, a da Lousã a de Coimbra e todo o curso sinuoso do Mondego, desde a Figueira até lá. Todos se extasiam ao falar das belezas naturais que se admiram no estrangeiro, quando o nosso país possui algumas que, como estas, suplantam muitas tão apreciadas. É necessário que nós, portugueses, tenhamos mais amor à nossa Pátria e que façamos toda a propaganda possível das paisagens de maravilha com que a natureza prodigamente a dotou e que não são inferiores às que lá por fora tão apregoadas são.
Figueira da Foz, 1924.

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