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Entrevista com o 1.211, por António Amargo

Fomos encontrar o 1.211 na rua Dr. Calado, 74, na Garage Central, do Antonio Heleno… O 1.211 não é nenhum guarda civico, nem recruta recentemente encorporado:

– é um automóvel de aluguer, cujo nome de baptismo é Flirt. O meu caro amigo conhece bem a Serra da Boa Viagem? O 1.211 deu uma buzinada de troca:

– Ora essa! Conheço-a tão bem como as minhas proprias engrenagens, como as minhas porcas, como o meu motor, como os meus pneumaticos, como os meus travões…

– Suponha então você que me apetecia dar um passeio até lá acima. Dizem-me maravilhas da Serra queria saber o que há por lá que seja digno de se ver. O Flirt abriu o escapo livre da sua eloquência e começou a descrever, na sua linguagem natural de tantos kilómetros á hora:

– Chegados ao alto da Serra, seguimos na direcção do poente; visitamos sucessivamente as pitorescas fontes do Covão e da Espinheira e a curiosa fonte de Santa Marinha, para a qual se desce por sucessivos lanços de escadaria, artisticamente dispostos.

– E a agua?

– Excelente de paladar e tão fresca como se viera de atravessar um frigorífico instalado no ventre da montanha… Depois, sem um solavanco pela estrada lisa, eu transporto o turista até ao Alto da Vela, o ponto culminante da Serra. Espraiando a vista para o sul, avista-se em dia claros o pinhal de Leiria, Monte Real, Monte Redondo, a cidade de Leiria com o recorte negro do seu castelo mourisco, o farol de S. Pedro de Muel, e no mar as manchas pequenas, que são as Berlengas, como dorsos escuros e indeciosos de animaes marinhos.

Que linda comparação! Ali perto da Vela, um pouco mais abaixo, mas num lindissimo ponto de vista a cavaleiro de Buarcos e da sua formosa enseada, é que se anda a construir o Pavilhão de Turismo, projecto do distinto arquitecto sr. Raul Lino e destinado á instalação dum serviço esmerado de restaurante. Retrocedendo depois, visita-se o Covão das Figueirinhas, onde existe, soberbo de frescura frescura e viço, um magnífico massiço de cedros, ponto entre todos designado naturalmente para lanches ou para piqueniques. Depois, Santo Amaro…

– Pela Pampulha?…

– Nada de fazer blague:
– Santo Amaro é uma capelinha antiquissima, em cujas paredes ennegrecidas pelo tempo todo o visitante tinha a mania de deixar o seu nome esculpido a canivete.

De ali partimos para a Bandeira, outro ponto de vista admiravel e de panoramas totalmente diversos dos da Vela. Vê-se a nossos pés a Murtinheira, mais lange Quiaios e as suas dunas. Em dias limpidos avista-se o farol de Aveiro e para o nascente a mancha clara das casas de Coimbra e o negrume das serras do bussaco, do Caramulo e da Estrêla. Para o sul, Soure, Pombal, Leiria.


Tendo admirado a paizagem, descemos ao Vale da Urraca, enriquecido com a plantação de 30.000 árvores exóticas e onde de aqui por alguns anos se erguerá uma explêndida floresta.

Depois finalmente, toma-se à direita pela estrada Quiaios-Figueira, observando neste trajecto os belos massiços de pinheiros bravos e mansos – e regressa-se tranquilamente á Figueira, após umas horas de agradável prazer corporal e espiritual.

– Muito agradecidos pelas informações…

Mas o 1.211, por despedida, diz-nos ainda: Escreva lá no seu «Europa» esta grande verdade:

– vir á Figueira e não vêr a Serra da Boa-Viagem é precisamente o mesmo que ir a Roma e não ver o Papa…


in Revista Europa, Ano I, n.º 4 de 1 de Junho de 1925

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