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Crescemos com e nas Abadias

Um texto de Miguel e Pedro Poiares Maduro

As Abadias eram a extensão de nossa casa. Na verdade, entre a escola e ir jantar, as Abadias eram, praticamente, a nossa casa. Foi lá que conhecemos tantos amigos. Foi lá que ainda sonhámos vir a ser estrelas de futebol. Foi lá que esfolámos joelhos e partimos cabeças. Foi lá que fizemos o nosso primeiro projeto, criando o Abadias Futebol Clube… Obtivemos fundos, comprámos equipamento, organizámos torneios.
As Abadias ofereciam tanto com, aparentemente, tão pouco: um “tapete” de relva ondulante com buracos, separado por uma vala (o principal foco de debate era quem ia buscar a bola à vala e evitava cair no esgoto…). Mas a partir desse nada quase infinito, de tão longo, podíamos fazer quase tudo: jogar futebol mas também rugby, correr etc. Aquela relva era um livro em branco que podíamos preencher com o que nos apetecia fazer. Havia sempre espaço, mesmo que tivéssemos de encaixar as balizas entre árvores ou evitar os grupos dos piqueniques de domingo… A água dos aspersores servia de bar e balneário…

foto: Ricardo Lima

A divisória era a vala. Começámos por jogar mais do lado de cá do que de lá. Mas à medida que se crescia saltava-se (literalmente) a vala para o lado de lá. No outro lado, o campo era maior e melhor e jogavam os mais crescidos. Crescemos com e nas Abadias. Na Figueira há aqueles cujas recordações se centram na praia e há, os outros, como nós, para quem a memória mais viva são as Abadias. Um figueirense tem de ter memória das Abadias. Os da praia são apenas figueirenses
do verão.
Hoje, pais e filhos jogam em campos pavimentados, com balizas a sério. Fazem exercícios em equipamentos espalhados pelo jardim e já não usam as árvores ou os saltos da vala… Há formas de desenvolvimento que não trazem necessariamente progresso. Ou talvez seja apenas a nossa nostalgia. Quando olhamos para as Abadias hoje já só vemos um livro em branco. Falta o colorido
que as pessoas lá faziam…

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