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Geraldes Lino

Texto de Sara Figueiredo Costa

É quase sempre fácil falar dos que partem com a voz do consenso. No caso de Geraldes Lino, não há nada de forçado nisso, porque o consenso existia mesmo e tinha a sua origem num gesto constante que, para mim, e suponho que para muita gente, caracterizava a pessoa que o praticava: o gesto da curiosidade, absoluta, generosa e genuína. Lino gostava de banda desenhada, sim, e muito, mas esse gostar não se mostrava daquele modo elegíaco e cristalizado que tantas vezes atravessa o meio. Gostar de banda desenhada não lhe encerrava as referências ou as preferências naquilo que já conhecia há muito, e que era muito, também, levando-o, antes, à procura constante do que de novo se ia fazendo. Feiras de fanzines, encontros de pequenos ou minúsculos editores, exposições nos sítios mais improváveis, em todos esses sítios se encontrava Geraldes Lino. E não era apenas a vontade de ampliar uma colecção cada vez maior, não, era vontade genuína de acompanhar o que se fazia de novo.

Não consigo lembrar-me onde conheci Geraldes Lino, porque a minha memória me diz que o fui vendo sempre nestes espaços. Se calhar, foi na Fábrica da Cultura, no tempo do FIBDA, mas também pode ter sido numa daquelas feiras de fanzines que se faziam em Cacilhas, nem vou contar há quantos anos… Pouco importa, na verdade. Com ele aprendi muito, soube de edições antigas e de autores que desconhecia, e discuti umas quantas vezes. E era bom discutir com Geraldes Lino, porque ele o fazia com vontade de debater, sem aquela amargura que às vezes serve para não ouvir o outro lado. Não terá havido um autor de banda desenhada a surgir em Portugal, publicando numa editora consagrada, num jornal ou numa publicação fanzinesca de tiragem minúscula e imperceptível que tenha escapado ao interesse de Lino e será impossível transformar em qualquer valor quantificável o quanto lhe deve a banda desenhada portuguesa, sob tantos aspectos. Pela minha parte, sem acreditar que se passe alguma coisa depois do inevitável momento final que a todos nos toca e tocará, não deixo de imaginar Geraldes Lino num qualquer além a descobrir fanzines onde ninguém suspeitaria da sua existência. E a corrigir-lhes as gralhas e os erros gramaticais com o seu rigor de sempre.

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