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Entrevista: Ticha Penicheiro – da Figueira da Foz para o Hall of Fame

texto de Pedro Silva

Quando, com apenas 5 anos, a Patrícia pegou pela primeira vez numa bola de basket, dificilmente alguém imaginaria que esse primeiro contacto se transformaria hoje na nomeação para o Hall of Fame, onde chegam apenas aquelas que fizeram algo de extraordinário no basquetebol feminino. Como se explica a uma menina que está agora a começar no basket que é possível chegar ao topo?

Penso que sou um exemplo disso. Nasci na Figueira da Foz, em Portugal, num país sem grande historial no basket feminino. Comecei a jogar desde pequenina, no meio de rapazes. Consegue-se chegar longe com muito trabalho, muita dedicação, uma grande paixão pela modalidade e um acreditar na concretização dos nossos sonhos, trabalhando sempre para que eles se concretizem e se consiga ser sempre melhor.

Patrícia Penicheiro – ou simplesmente Ticha – deu os primeiros importantes passos para o basket na Figueira da Foz. Era comum encontrá-la no concorrido Campo das Traseiras, bem perto do Parque das Abadias, a competir com rapazes mais velhos, mais fortes, mais altos.

Posso dizer que viver nas Abadias foi decisivo para a minha carreira. Infelizmente em Portugal não existem muitos campos de rua (os playground) e eu tive bastante sorte porque bastava atravessar a estrada e estava no playground, onde passei muitas horas, muitos dias, a jogar e a lançar ao cesto. Por vezes era a única rapariga no meio dos rapazes, no famoso Campo das Traseiras, e foi aí que tudo começou. E claro, viver nas Abadias foi óptimo! Tinha um parque em frente a minha casa, onde podia jogar futebol, correr, praticar desporto, estar ao ar livre. Mas a melhor coisa de todas foi decididamente ter o Campo das Traseiras mesmo ali ao lado.

Começa a adivinhar-se um futuro risonho na modalidade, mas ainda nada que se assemelhasse ao topo da liga norte-americana, onde acabou por conquistar o maior dos títulos pelas Sacramento Monarchs. Do Ginásio Figueirense desde menina, passa pela União de Santarém e aos 19 anos parte para a Universidade de Old Dominion com uma bolsa de estudo. Longe de amigos e familiares, a um oceano de distância da cidade natal, o ousado passo sofre traços de incerteza. As aulas em inglês assustam, o ritmo de treinos é avassalador e, numa época com poucas facilidades tecnológicas, as saudades apertam. Como se convive com um sonho desafiante, mas de destino incerto?

Eu costumo sempre dizer às crianças e adolescentes para que sonhem alto e acreditem nos seus sonhos. Mas os resultados não caem do céu, não basta sonhar. É precisar nós trabalharmos, darmos o nosso máximo. No meu caso eu queria ser a melhor jogadora de basket, tentar vingar nos Estados Unidos, primeiro na Universidade e depois nos profissionais. O sonho pode ser outro qualquer. Mas terá obrigatoriamente que se fazer acompanhar por muito trabalho.

A facilidade de adaptação e a enorme capacidade de superação ajudam-na a ultrapassar obstáculos. Chega à WNBA, a mais importante liga feminina do mundo, e durante 12 épocas conquista Sacramento com a ajuda das suas Monarchs, onde alcança o título máximo e acumula assinaláveis marcas individuais. Nos intervalos da liga americana, saltita pela Europa, onde preenche o seu brilhante currículo desportivo com títulos nos mais competitivos campeonatos. Ticha termina a carreira em 2012, aos 38 anos, e coloca o ponto de exclamação no mais bonito capítulo da história do basquetebol português, com a nomeação para o Hall of Fame em Fevereiro último.

Foi um orgulho imenso, o de poder continuar a levar o nome de Portugal e da Figueira da Foz bem alto aqui pelos Estados Unidos. Só entra no Hall of Fame quem de facto contribuiu de uma maneira excepcional para o desenvolvimento do desporto, neste caso o basket feminino. E então, claro, é uma grande honra e uma sensação espetacular. O que há mais para alcançar? Há outra Hall of Fame, que inclui basket feminino e masculino, que é o Hall of Fame de Massachusetts. Isso seria o top!

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