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Chamo-me Palmira, sou uma sardinha, e estou aqui para vos contar a minha história (parte 1)

Nasci há pouco mais de 7 anos na costa portuguesa, mais propriamente na zona de Mira, a cerca de 40 metros de profundidade. A semana passada fui capturada viva, juntamente com milhares de irmãs, depois de um cerco efectuado pelo Oscar Romeu, naquela que foi considerada, pelos nossos companheiros, como uma das maiores devastações que o nosso cardume já sofreu.


Não sendo das mais velhas, também não era exactamente das mais novas (só estas escapam ao fatal destino) e, como tal, obviamente, sou uma sardinha sem vida própria. Soltei o último suspiro já ciente do que me esperava. Felizmente, o nosso Criador, quem sabe para nos compensar do extremo aborrecimento que as nossas vidas carregaram, em constantes viagens para lá e acolá, dotou-nos desta capacidade de podermos contar a história mesmo depois do último esticar de guelra. Eu, Palmira de Bartolomeu Pires, não querendo puxar a brasa à minha sardinha, sei fazê-lo como nenhuma outra jamais ousou.


Fomos cercadas pelo Oscar Romeu no passado dia 3, passavam vinte e tal minutos das 5 da manhã, hora humana, ao largo da Figueira da Foz. Fui retirada do mar através de um cesto, puxada para a embarcação e colocada dentro de uma enorme caixa, juntamente com centenas de irmãs. Não esperneámos pois não temos pernas, mas demos ao rabo como só as sardinhas sabem fazer, numa desesperada manifestação de protesto contra a súbita ausência da nossa substância química de eleição, a grandiosa H2O. Fomos brindadas com várias camadas de gelo, o que atenuou, mas não resolveu, a nossa delicada e crítica situação. Batemos a bota, esticámos o pernil, falecemos que nem umas doidas uma longa hora mais tarde, umas antes, outras depois, e tudo de olho aberto, não fosse dar-se o caso de um milagre de última hora nos salvar as escamas. Não aconteceu.


Cheguei ao porto de pesca já falecida, mas razoavelmente feliz com a vida que levei. Não foi algo de muito fantástico, mas fartei-me de passear e a companhia foi sempre agradável. Não me posso queixar. Não aprendi a andar de bicicleta, mas foi uma vida inteira dedicada à natação. Sem remorsos.
Assim que atracou, a tripulação do Oscar Romeu iniciou a operação do nosso descarregamento. Fui colocada numa caixa mais pequena e içada para o cais. O nosso cardume foi dividido em dezenas de cabazes iguais, cada um com 22,5 kg do nosso peso.
Pode não parecer uma situação de grande dignidade. Centenas de nós, amontoadas, como se fôssemos gado (somos peixe, com muito orgulho). Retira-nos alguma individualidade, é certo, mas os nossos antepassados ensinaram-nos que devemos encarar a chegada ao cabaz como uma homenagem ao espírito colectivo da nossa espécie.

PEDRO SILVA

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