Press "Enter" to skip to content

Posts published in “Arquivo Fotográfico”

UMA FOTO, MUITAS HISTÓRIAS

Foto da coleção Manuel Santos pertencente ao Fundo Documental do AFM [sem data], da Esplanada Silva Guimarães numa das décadas de maior movimento e o inicio do apogeu turístico da Figueira da Foz. A foto é da década de 40 do século XX, sendo visível do lado esquerdo a construção da Torre do Relógio.

Os diversos grupos de putativos veraneantes que frequentaram esta foto do princípio dos anos 40 do passado século, explicam todo o clima do estio figueirense da época.

Enquanto o pôr-do-sol não se debruça sobre o poente com a linha do horizonte unida ao Cabo Mondego, as barracas na praia já se despiram dos seus trajes, certos que no dia seguinte, de cada quinzena ou mês pleno, lá estariam eles, os banhistas, novamente, envoltos na neblina matinal, ou no teimoso nevoeiro, “aguarde-se que o sol não tarda em “abrir”, e mesmo que isso não aconteça de todo, há um livro que se lê, um jornal que nos informa do estado do tempo para o dia seguinte, um olhar que se deita sobre aquele corpo misterioso de mulher.

Os dias decorrem calmos por estas bandas, o fim de tarde é refrescante e daí a presença dos casacos compridos que confirmam a veracidade do tempo.

À direita distingue-se a entrada do posto de Turismo, com serviço dos CTT-telefone e caixas do correio.

Se as ligações telefónicas correspondiam ao lento passar do tempo, a correspondência seguramente seria lida um ou dois dias depois.

As conversas da tarde recordariam a manhã de praia, e os passeios na esplanada de encontros esperados, tinham segundas edições nas mesas dos cafés do Picadeiro, ou nas noites do Casino.

Vir à Figueira era a confirmação de fidelidade de banhos à Praia da Claridade e ao seu pequeno mundo, que se espraiava de Julho a Setembro, ano após ano… O verão figueirense era uma filosofia de vida.
Hoje, é possível que deste conjunto de pessoas que nesta foto deambulam pela Esplanada Silva Guimarães, haja alguns descendentes que por cá persistem no esgalhar do verão figueirense. Será possível? Mesmo perante as transformações dos lugares, dos hábitos, dos comportamentos?… E que dizer das ofertas, ou da falta delas, à falsa efervescência do movimento, ou mesmo da sua indefinição.

No então Posto de Turismo, hoje edifício oco, despido de conceitos, os programas de verão ali elaborados, correspondiam na maioria das épocas de veraneio àquilo que o João Oliveira (“John Bife”), secretário da casa, repetia exaustivamente – “manhã de praia, à tarde Picadeiro e Esplanada, e à noite o Casino”. Umas touradas, pelo meio, regatas no Rio Mondego, construções na areia, Volta dos Campeões logo após a Volta a Portugal, em ciclismo. Longos passeios à Serra da Boa Viagem, visitas sacramentais à Mercearia Encarnação, na Rua dos Banhos, ou à Mercearia do senhor Adriano Lucas, na Praça Nova. O Mercado e a Lota da Praia da Sardinha mereciam visita obrigatória, com o Jardim, ali ao lado, de frondoso arvoredo e vegetação abrigando-nos dos calores extemporâneos. Era isto… E hoje, como é? Perdeu-se muita coisa, e ter-se-á ganho alguma?…

Ora vejamos, o que hoje, neste preciso momento acontece. Vem aí o Filmart, dizem alguns. Mas, caros amigos, onde pára a essência do Festival de Cinema? O Casino leva-nos ao pecado, em espectáculos 3 ou 4 dias por semana. Mas, onde estão as famosas e relembradas Noites de Espanha, à Portuguesa, das constantes atracções nacionais e estrangeiras do espectáculo? E que dizer dos filmes ou peças de teatro no Parque Cine e no Peninsular? Com que então queres ir ao cinema…Pois liga a TV e vê lá descobres nos 300 canais um filme de jeito. Isso de ir ao Jumbo…pois sim!… Corre o pano, por favor!

(continua no próximo número)