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O Palhinhas

Custódio Cruz sobre a importância do Mercado

Custódio Cruz, 57 anos, explora uma loja de produtos tradicionais portugueses no Mercado Municipal Engenheiro Silva, onde já se encontra há trinta anos, sendo um profundo conhecedor de toda a sua envolvência e desenvolvimento. Nota-se- -lhe uma certa amargura com o passado e uma crescente preocupação pelos tempos futuros, ele que lutou incansavelmente pelos direitos dos comerciantes e que acompanhou a mais recente renovação do Mercado Municipal. Fundou e presidiu à Associação de Comerciantes do Mercado Engenheiro Silva da Figueira da Foz, criada no final de 2009 com a missão de defender o Mercado Municipal e os seus comerciantes, inclusivamente para lhes dar alguma segurança em termos jurídicos. Entretanto extinguiu-se, já depois da remodelação de 2013.

Foto: Ricardo Silva

Hoje, o que falta ao mercado?
Acima de tudo, falta uma atenção tremenda para com este espaço. Não só para o defender como espaço simbólico da Figueira da Foz, mas com a necessidade de o solidificar, indo ao encontro de uma realidade que hoje tanto se discute no país, que é o turismo.

Esse trabalho devia ser feito por quem?
De forma conjunta, não só pelo município mas também com os comerciantes. Quando criei a associação foi também nesse sentido. Tem que se dizer a verdade. E a verdade é que nós fomos chamados para todo o processo de renovação do Mercado, inclusivamente houve exigências da parte da associação para que tivéssemos as condições mínimas no Mercado provisório – e tivemos essas condições mínimas! Houve a preocupação de nos defendermos em termos daquilo que era a nossa actividade no decorrer das obras, além da forma como o Mercado deveria ficar estruturado de modo a que não se procedessem a alterações que lhe tirassem o âmbito histórico e tradicional.

Isso foi conseguido?
Sim. O que é que eu vejo? Eu vejo as pessoas a chegar ao Mercado e a pegar nos seus telemóveis e nas suas máquinas para tirar fotografias, para registarem a sua passagem por este espaço histórico. E estas situações só se passam aqui, no Mercado Municipal, e não noutros espaços comerciais… isto significa que as pessoas reconhecem o mercado como algo de muito valor e com muita diferenciação. Por isso eu digo. As obras foram bem feitas. O Mercado está bonito. O problema que se põe é… de que forma o podemos dinamizar e preservar? Porque nós temos aqui muitos comerciantes idosos, e a juventude não tem entrado. E eu não acredito que os jovens não queiram vir. Sou da opinião que devia haver uma comunicação mais empolgante no sentido de lhes fazer ver que aqui está uma boa solução para eles. Deviam ir ter com as próprias juntas de freguesia e fazer essa dinamização no sentido de se averiguar se há pessoas interessadas em vir para aqui ocupar tabuleiros.

Foto: Ricardo Silva

Há muitos tabuleiros por ocupar?
Há alguns por ocupar porque houve pessoas que abandonaram. E não se encontra uma solução. Acabar com o Mercado? Não. Então a solução é aquilo que andam para aí a dizer? Que as Freirinhas estão ali a cair aos poucos, e o edifício Trabalho naquele estado… e que estão à espera que o Mercado também caia?… Será que o que dizem aí… que aquele edifício vermelho [nota: o edifício conhecido como o Frigorífico, contíguo ao mercado, que funcionava como armazém do Mercado Municipal]… onde há pouco tempo houve um incêndio – e depois vieram dizer que era uma queimada – também está à espera que o mercado caia? Por isso pergunto. Será que as Freirinhas, será que o Edifício Trabalho, será que o edifício vermelho, estão à espera que algo aconteça ao Mercado, para se unir tudo e fazer mais um centro comercial, acabando com esta realidade histórica que temos aqui, e que identifica o Concelho da Figueira? Com estas vivências todas, entre as peixeiras, as pessoas ligadas aos produtos hortículas, ou nós que temos estes artigos tradicionais? Não há na Figueira mais espaços emblemáticos como este! É muito importante resolver este problema das Freirinhas, do Trabalho e desse prédio que está em venda e que alguém vai tirar o respectivo benefício financeiro. Um dia vou ter que dizer quem é, e porque é que é, e como é que foi.

De que forma pode o Mercado ser dinamizado?
É importante dinamizar o Mercado em termos de cidade, em termos de Figueira da Foz, mas nunca nos podemos dissociar do nosso país. Mediante esta filosofia, é importante que as pessoas se juntem. E avançar para uma solução, que passa por dinamizar os espaços como um só. Tem que haver um esforço conjunto, estas coisas só se conseguem se remarem todos para o mesmo lado. O Mercado ficou de acordo com as nossas exigências. Nós podemos dar as ideias, mas a Câmara é que tem a estrutura para as concretizar. Os produtores eram para ter acabado. Uma das situações que a associação se bateu foi precisamente esta. Por duas razões. Uma, humana, porque os produtores são na maior parte das vezes pessoas com alguma idade, com reformas muito baixas, que têm no Mercado o seu pequeno complemento. E outra, para valorizar o próprio Mercado, porque os produtores aqui são importantíssimos, é o que diferencia o Mercado de outros espaços. O importante é isto. Eu sou figueirense. Eu não gosto só do Mercado porque preciso do meu trabalho. Eu gosto muito da Figueira. Até porque desde criança fui criado ao lado de uma grande senhora, que já partiu, que era a minha mãe, e que vendia amendoins com uma carroça branca aqui à porta do Mercado. Portanto cresci neste meio. Tenho esta ligação de coração. Não é só o meu interesse que está em causa, é o interesse da Figueira. É pena, porque um discurso deste tipo não cativa as pessoas.

É preciso envolver mais os figueirenses com o Mercado?
Sabe que eu sou aqui por vezes confrontado por pessoas de fora com o seguinte: “sabe-me dizer aqui qual a zona mais tradicional da Figueira?”. Bem, e respondo que há aqui esta zona do rio, mas não lhes consigo dizer mais nada! Então e agora vai-se acabar com isto? Por exemplo, terem acabado aqui com a piscina do Araújo foi um erro tremendo! Isto é só um exemplo. Retiraram-se atractivos a esta zona ribeirinha, não foi por acaso que depois os grandes espaços foram para norte da cidade. Agora há que os defender, pois claro… Volto a bater nesta tecla. A única coisa que a Figueira tem por aqui nesta zona é o Mercado. As pessoas vêm cá dentro, convivem, consomem, conversam, têm cafés e restaurantes lá fora. O que cá está é vital, é algo afirmado. Há coisas na vida que se afirmam de forma intemporal. Pura e simplesmente permanecem. São vitórias, ficam para o resto da vida, solidificam-se. As pessoas gostam disto! Agora há é que preservá-lo. É um espaço único.

Do Arquivo Fotográfico

“A imagem selecionada, pertence à coleção Casa Havanesa, integrada no espólio do Arquivo Fotográfico Municipal. A foto é de 1930, mais concretamente de 29/07/1930, com o título “Vista poente da Capitania”, onde é bem visível o edifício do Mercado Municipal. O edifício aparece como que inacabado relativamente ao atual. Foi alvo de várias intervenções, sendo a sua construção e exploração da responsabilidade da Sociedade de Progresso Figueirense, por escritura municipal de 1892. Nesta foto é também visível, o antigo assim edifício, por detrás do jardim, da Moagem do centro, mais tarde demolido para dar lugar ao Palácio da Justiça.A autoria da foto não foi passível de identificação.”

As Abadias pela voz das crianças

DESENHOS E RESPOSTAS DE ALUNOS DA ESCOLA EB1 DAS ABADIAS

Faria um parque infantil adaptado.
Miguel – 3º. A

Embelezava o parque com zonas divertidas de desporto
Martim Gomes da Silva-3º. A


Colocava um balão gigante para apanhar o lixo
Carmen-3º. A

Enriquecia o parque com um insuflável para todas as idades, uma fonte, mais zonas de exercício e uma discoteca e um restaurante.
Pedro Valente-3º. A

Enriquecia o parque com mais zonas desportivas e zonas de lazer.
Duarte-3º. A


Construía um circo no meio do parque.
Inês-3º. A
Eu queria ter um castelo para brincarmos aos príncipes e princesas.
Maria Inês-2º. B

Eu escolhia colocar um parque, porque podem brincar.
Rodrigo Augusto-2º. B


Parque de campismo especial com insufláveis.
Clarisse Contente-2º. B


Eu queria o selaide e escorrega de água.
Mafalda-2º. B

Se pudesse melhorar o parque verde das Abadias… construiria uma loja de gomas, um wc e uma loja de hamburguers.
Josefa Gomes – 4º. C


Se pudesse, melhorava e expandia o parque infantil, metendo bancos no espaço verde, junto aos passeios e às pontes e colocando novas pontes.
Miguel Pinto-4º. C

Se eu pudesse melhorava o parque verde das Abadias… do lado sul colocando mesas de piquenique plantando mais árvores e arbustos, e colocando bancos para pessoas se sentarem… do lado norte, melhorava as pontes, colocaria bancos e colocaria um parque para praticar jogos com skart.
Brenda Vieira-4º. C


Se pudesse, melhorava o parque verde das Abadias tirando o parque infantil e mandava construir um escorrega de água, uma loja de doces, bancos, um túnel e uma pista para passeios a cavalo.
Viktória Dachanyuk – 4º. C

Entrevista: Ticha Penicheiro – da Figueira da Foz para o Hall of Fame

texto de Pedro Silva

Quando, com apenas 5 anos, a Patrícia pegou pela primeira vez numa bola de basket, dificilmente alguém imaginaria que esse primeiro contacto se transformaria hoje na nomeação para o Hall of Fame, onde chegam apenas aquelas que fizeram algo de extraordinário no basquetebol feminino. Como se explica a uma menina que está agora a começar no basket que é possível chegar ao topo?

Penso que sou um exemplo disso. Nasci na Figueira da Foz, em Portugal, num país sem grande historial no basket feminino. Comecei a jogar desde pequenina, no meio de rapazes. Consegue-se chegar longe com muito trabalho, muita dedicação, uma grande paixão pela modalidade e um acreditar na concretização dos nossos sonhos, trabalhando sempre para que eles se concretizem e se consiga ser sempre melhor.

Patrícia Penicheiro – ou simplesmente Ticha – deu os primeiros importantes passos para o basket na Figueira da Foz. Era comum encontrá-la no concorrido Campo das Traseiras, bem perto do Parque das Abadias, a competir com rapazes mais velhos, mais fortes, mais altos.

Posso dizer que viver nas Abadias foi decisivo para a minha carreira. Infelizmente em Portugal não existem muitos campos de rua (os playground) e eu tive bastante sorte porque bastava atravessar a estrada e estava no playground, onde passei muitas horas, muitos dias, a jogar e a lançar ao cesto. Por vezes era a única rapariga no meio dos rapazes, no famoso Campo das Traseiras, e foi aí que tudo começou. E claro, viver nas Abadias foi óptimo! Tinha um parque em frente a minha casa, onde podia jogar futebol, correr, praticar desporto, estar ao ar livre. Mas a melhor coisa de todas foi decididamente ter o Campo das Traseiras mesmo ali ao lado.

Começa a adivinhar-se um futuro risonho na modalidade, mas ainda nada que se assemelhasse ao topo da liga norte-americana, onde acabou por conquistar o maior dos títulos pelas Sacramento Monarchs. Do Ginásio Figueirense desde menina, passa pela União de Santarém e aos 19 anos parte para a Universidade de Old Dominion com uma bolsa de estudo. Longe de amigos e familiares, a um oceano de distância da cidade natal, o ousado passo sofre traços de incerteza. As aulas em inglês assustam, o ritmo de treinos é avassalador e, numa época com poucas facilidades tecnológicas, as saudades apertam. Como se convive com um sonho desafiante, mas de destino incerto?

Eu costumo sempre dizer às crianças e adolescentes para que sonhem alto e acreditem nos seus sonhos. Mas os resultados não caem do céu, não basta sonhar. É precisar nós trabalharmos, darmos o nosso máximo. No meu caso eu queria ser a melhor jogadora de basket, tentar vingar nos Estados Unidos, primeiro na Universidade e depois nos profissionais. O sonho pode ser outro qualquer. Mas terá obrigatoriamente que se fazer acompanhar por muito trabalho.

A facilidade de adaptação e a enorme capacidade de superação ajudam-na a ultrapassar obstáculos. Chega à WNBA, a mais importante liga feminina do mundo, e durante 12 épocas conquista Sacramento com a ajuda das suas Monarchs, onde alcança o título máximo e acumula assinaláveis marcas individuais. Nos intervalos da liga americana, saltita pela Europa, onde preenche o seu brilhante currículo desportivo com títulos nos mais competitivos campeonatos. Ticha termina a carreira em 2012, aos 38 anos, e coloca o ponto de exclamação no mais bonito capítulo da história do basquetebol português, com a nomeação para o Hall of Fame em Fevereiro último.

Foi um orgulho imenso, o de poder continuar a levar o nome de Portugal e da Figueira da Foz bem alto aqui pelos Estados Unidos. Só entra no Hall of Fame quem de facto contribuiu de uma maneira excepcional para o desenvolvimento do desporto, neste caso o basket feminino. E então, claro, é uma grande honra e uma sensação espetacular. O que há mais para alcançar? Há outra Hall of Fame, que inclui basket feminino e masculino, que é o Hall of Fame de Massachusetts. Isso seria o top!

PARA RECEBER O PALHINHAS:

Geraldes Lino

Texto de Sara Figueiredo Costa

É quase sempre fácil falar dos que partem com a voz do consenso. No caso de Geraldes Lino, não há nada de forçado nisso, porque o consenso existia mesmo e tinha a sua origem num gesto constante que, para mim, e suponho que para muita gente, caracterizava a pessoa que o praticava: o gesto da curiosidade, absoluta, generosa e genuína. Lino gostava de banda desenhada, sim, e muito, mas esse gostar não se mostrava daquele modo elegíaco e cristalizado que tantas vezes atravessa o meio. Gostar de banda desenhada não lhe encerrava as referências ou as preferências naquilo que já conhecia há muito, e que era muito, também, levando-o, antes, à procura constante do que de novo se ia fazendo. Feiras de fanzines, encontros de pequenos ou minúsculos editores, exposições nos sítios mais improváveis, em todos esses sítios se encontrava Geraldes Lino. E não era apenas a vontade de ampliar uma colecção cada vez maior, não, era vontade genuína de acompanhar o que se fazia de novo.

Não consigo lembrar-me onde conheci Geraldes Lino, porque a minha memória me diz que o fui vendo sempre nestes espaços. Se calhar, foi na Fábrica da Cultura, no tempo do FIBDA, mas também pode ter sido numa daquelas feiras de fanzines que se faziam em Cacilhas, nem vou contar há quantos anos… Pouco importa, na verdade. Com ele aprendi muito, soube de edições antigas e de autores que desconhecia, e discuti umas quantas vezes. E era bom discutir com Geraldes Lino, porque ele o fazia com vontade de debater, sem aquela amargura que às vezes serve para não ouvir o outro lado. Não terá havido um autor de banda desenhada a surgir em Portugal, publicando numa editora consagrada, num jornal ou numa publicação fanzinesca de tiragem minúscula e imperceptível que tenha escapado ao interesse de Lino e será impossível transformar em qualquer valor quantificável o quanto lhe deve a banda desenhada portuguesa, sob tantos aspectos. Pela minha parte, sem acreditar que se passe alguma coisa depois do inevitável momento final que a todos nos toca e tocará, não deixo de imaginar Geraldes Lino num qualquer além a descobrir fanzines onde ninguém suspeitaria da sua existência. E a corrigir-lhes as gralhas e os erros gramaticais com o seu rigor de sempre.

Crescemos com e nas Abadias

Um texto de Miguel e Pedro Poiares Maduro

As Abadias eram a extensão de nossa casa. Na verdade, entre a escola e ir jantar, as Abadias eram, praticamente, a nossa casa. Foi lá que conhecemos tantos amigos. Foi lá que ainda sonhámos vir a ser estrelas de futebol. Foi lá que esfolámos joelhos e partimos cabeças. Foi lá que fizemos o nosso primeiro projeto, criando o Abadias Futebol Clube… Obtivemos fundos, comprámos equipamento, organizámos torneios.
As Abadias ofereciam tanto com, aparentemente, tão pouco: um “tapete” de relva ondulante com buracos, separado por uma vala (o principal foco de debate era quem ia buscar a bola à vala e evitava cair no esgoto…). Mas a partir desse nada quase infinito, de tão longo, podíamos fazer quase tudo: jogar futebol mas também rugby, correr etc. Aquela relva era um livro em branco que podíamos preencher com o que nos apetecia fazer. Havia sempre espaço, mesmo que tivéssemos de encaixar as balizas entre árvores ou evitar os grupos dos piqueniques de domingo… A água dos aspersores servia de bar e balneário…

foto: Ricardo Lima

A divisória era a vala. Começámos por jogar mais do lado de cá do que de lá. Mas à medida que se crescia saltava-se (literalmente) a vala para o lado de lá. No outro lado, o campo era maior e melhor e jogavam os mais crescidos. Crescemos com e nas Abadias. Na Figueira há aqueles cujas recordações se centram na praia e há, os outros, como nós, para quem a memória mais viva são as Abadias. Um figueirense tem de ter memória das Abadias. Os da praia são apenas figueirenses
do verão.
Hoje, pais e filhos jogam em campos pavimentados, com balizas a sério. Fazem exercícios em equipamentos espalhados pelo jardim e já não usam as árvores ou os saltos da vala… Há formas de desenvolvimento que não trazem necessariamente progresso. Ou talvez seja apenas a nossa nostalgia. Quando olhamos para as Abadias hoje já só vemos um livro em branco. Falta o colorido
que as pessoas lá faziam…