Press "Enter" to skip to content

O Palhinhas

As Abadias pela voz das crianças

DESENHOS E RESPOSTAS DE ALUNOS DA ESCOLA EB1 DAS ABADIAS

Faria um parque infantil adaptado.
Miguel – 3º. A

Embelezava o parque com zonas divertidas de desporto
Martim Gomes da Silva-3º. A


Colocava um balão gigante para apanhar o lixo
Carmen-3º. A

Enriquecia o parque com um insuflável para todas as idades, uma fonte, mais zonas de exercício e uma discoteca e um restaurante.
Pedro Valente-3º. A

Enriquecia o parque com mais zonas desportivas e zonas de lazer.
Duarte-3º. A


Construía um circo no meio do parque.
Inês-3º. A
Eu queria ter um castelo para brincarmos aos príncipes e princesas.
Maria Inês-2º. B

Eu escolhia colocar um parque, porque podem brincar.
Rodrigo Augusto-2º. B


Parque de campismo especial com insufláveis.
Clarisse Contente-2º. B


Eu queria o selaide e escorrega de água.
Mafalda-2º. B

Se pudesse melhorar o parque verde das Abadias… construiria uma loja de gomas, um wc e uma loja de hamburguers.
Josefa Gomes – 4º. C


Se pudesse, melhorava e expandia o parque infantil, metendo bancos no espaço verde, junto aos passeios e às pontes e colocando novas pontes.
Miguel Pinto-4º. C

Se eu pudesse melhorava o parque verde das Abadias… do lado sul colocando mesas de piquenique plantando mais árvores e arbustos, e colocando bancos para pessoas se sentarem… do lado norte, melhorava as pontes, colocaria bancos e colocaria um parque para praticar jogos com skart.
Brenda Vieira-4º. C


Se pudesse, melhorava o parque verde das Abadias tirando o parque infantil e mandava construir um escorrega de água, uma loja de doces, bancos, um túnel e uma pista para passeios a cavalo.
Viktória Dachanyuk – 4º. C

Entrevista: Ticha Penicheiro – da Figueira da Foz para o Hall of Fame

texto de Pedro Silva

Quando, com apenas 5 anos, a Patrícia pegou pela primeira vez numa bola de basket, dificilmente alguém imaginaria que esse primeiro contacto se transformaria hoje na nomeação para o Hall of Fame, onde chegam apenas aquelas que fizeram algo de extraordinário no basquetebol feminino. Como se explica a uma menina que está agora a começar no basket que é possível chegar ao topo?

Penso que sou um exemplo disso. Nasci na Figueira da Foz, em Portugal, num país sem grande historial no basket feminino. Comecei a jogar desde pequenina, no meio de rapazes. Consegue-se chegar longe com muito trabalho, muita dedicação, uma grande paixão pela modalidade e um acreditar na concretização dos nossos sonhos, trabalhando sempre para que eles se concretizem e se consiga ser sempre melhor.

Patrícia Penicheiro – ou simplesmente Ticha – deu os primeiros importantes passos para o basket na Figueira da Foz. Era comum encontrá-la no concorrido Campo das Traseiras, bem perto do Parque das Abadias, a competir com rapazes mais velhos, mais fortes, mais altos.

Posso dizer que viver nas Abadias foi decisivo para a minha carreira. Infelizmente em Portugal não existem muitos campos de rua (os playground) e eu tive bastante sorte porque bastava atravessar a estrada e estava no playground, onde passei muitas horas, muitos dias, a jogar e a lançar ao cesto. Por vezes era a única rapariga no meio dos rapazes, no famoso Campo das Traseiras, e foi aí que tudo começou. E claro, viver nas Abadias foi óptimo! Tinha um parque em frente a minha casa, onde podia jogar futebol, correr, praticar desporto, estar ao ar livre. Mas a melhor coisa de todas foi decididamente ter o Campo das Traseiras mesmo ali ao lado.

Começa a adivinhar-se um futuro risonho na modalidade, mas ainda nada que se assemelhasse ao topo da liga norte-americana, onde acabou por conquistar o maior dos títulos pelas Sacramento Monarchs. Do Ginásio Figueirense desde menina, passa pela União de Santarém e aos 19 anos parte para a Universidade de Old Dominion com uma bolsa de estudo. Longe de amigos e familiares, a um oceano de distância da cidade natal, o ousado passo sofre traços de incerteza. As aulas em inglês assustam, o ritmo de treinos é avassalador e, numa época com poucas facilidades tecnológicas, as saudades apertam. Como se convive com um sonho desafiante, mas de destino incerto?

Eu costumo sempre dizer às crianças e adolescentes para que sonhem alto e acreditem nos seus sonhos. Mas os resultados não caem do céu, não basta sonhar. É precisar nós trabalharmos, darmos o nosso máximo. No meu caso eu queria ser a melhor jogadora de basket, tentar vingar nos Estados Unidos, primeiro na Universidade e depois nos profissionais. O sonho pode ser outro qualquer. Mas terá obrigatoriamente que se fazer acompanhar por muito trabalho.

A facilidade de adaptação e a enorme capacidade de superação ajudam-na a ultrapassar obstáculos. Chega à WNBA, a mais importante liga feminina do mundo, e durante 12 épocas conquista Sacramento com a ajuda das suas Monarchs, onde alcança o título máximo e acumula assinaláveis marcas individuais. Nos intervalos da liga americana, saltita pela Europa, onde preenche o seu brilhante currículo desportivo com títulos nos mais competitivos campeonatos. Ticha termina a carreira em 2012, aos 38 anos, e coloca o ponto de exclamação no mais bonito capítulo da história do basquetebol português, com a nomeação para o Hall of Fame em Fevereiro último.

Foi um orgulho imenso, o de poder continuar a levar o nome de Portugal e da Figueira da Foz bem alto aqui pelos Estados Unidos. Só entra no Hall of Fame quem de facto contribuiu de uma maneira excepcional para o desenvolvimento do desporto, neste caso o basket feminino. E então, claro, é uma grande honra e uma sensação espetacular. O que há mais para alcançar? Há outra Hall of Fame, que inclui basket feminino e masculino, que é o Hall of Fame de Massachusetts. Isso seria o top!

PARA RECEBER O PALHINHAS:

Geraldes Lino

Texto de Sara Figueiredo Costa

É quase sempre fácil falar dos que partem com a voz do consenso. No caso de Geraldes Lino, não há nada de forçado nisso, porque o consenso existia mesmo e tinha a sua origem num gesto constante que, para mim, e suponho que para muita gente, caracterizava a pessoa que o praticava: o gesto da curiosidade, absoluta, generosa e genuína. Lino gostava de banda desenhada, sim, e muito, mas esse gostar não se mostrava daquele modo elegíaco e cristalizado que tantas vezes atravessa o meio. Gostar de banda desenhada não lhe encerrava as referências ou as preferências naquilo que já conhecia há muito, e que era muito, também, levando-o, antes, à procura constante do que de novo se ia fazendo. Feiras de fanzines, encontros de pequenos ou minúsculos editores, exposições nos sítios mais improváveis, em todos esses sítios se encontrava Geraldes Lino. E não era apenas a vontade de ampliar uma colecção cada vez maior, não, era vontade genuína de acompanhar o que se fazia de novo.

Não consigo lembrar-me onde conheci Geraldes Lino, porque a minha memória me diz que o fui vendo sempre nestes espaços. Se calhar, foi na Fábrica da Cultura, no tempo do FIBDA, mas também pode ter sido numa daquelas feiras de fanzines que se faziam em Cacilhas, nem vou contar há quantos anos… Pouco importa, na verdade. Com ele aprendi muito, soube de edições antigas e de autores que desconhecia, e discuti umas quantas vezes. E era bom discutir com Geraldes Lino, porque ele o fazia com vontade de debater, sem aquela amargura que às vezes serve para não ouvir o outro lado. Não terá havido um autor de banda desenhada a surgir em Portugal, publicando numa editora consagrada, num jornal ou numa publicação fanzinesca de tiragem minúscula e imperceptível que tenha escapado ao interesse de Lino e será impossível transformar em qualquer valor quantificável o quanto lhe deve a banda desenhada portuguesa, sob tantos aspectos. Pela minha parte, sem acreditar que se passe alguma coisa depois do inevitável momento final que a todos nos toca e tocará, não deixo de imaginar Geraldes Lino num qualquer além a descobrir fanzines onde ninguém suspeitaria da sua existência. E a corrigir-lhes as gralhas e os erros gramaticais com o seu rigor de sempre.

Crescemos com e nas Abadias

Um texto de Miguel e Pedro Poiares Maduro

As Abadias eram a extensão de nossa casa. Na verdade, entre a escola e ir jantar, as Abadias eram, praticamente, a nossa casa. Foi lá que conhecemos tantos amigos. Foi lá que ainda sonhámos vir a ser estrelas de futebol. Foi lá que esfolámos joelhos e partimos cabeças. Foi lá que fizemos o nosso primeiro projeto, criando o Abadias Futebol Clube… Obtivemos fundos, comprámos equipamento, organizámos torneios.
As Abadias ofereciam tanto com, aparentemente, tão pouco: um “tapete” de relva ondulante com buracos, separado por uma vala (o principal foco de debate era quem ia buscar a bola à vala e evitava cair no esgoto…). Mas a partir desse nada quase infinito, de tão longo, podíamos fazer quase tudo: jogar futebol mas também rugby, correr etc. Aquela relva era um livro em branco que podíamos preencher com o que nos apetecia fazer. Havia sempre espaço, mesmo que tivéssemos de encaixar as balizas entre árvores ou evitar os grupos dos piqueniques de domingo… A água dos aspersores servia de bar e balneário…

foto: Ricardo Lima

A divisória era a vala. Começámos por jogar mais do lado de cá do que de lá. Mas à medida que se crescia saltava-se (literalmente) a vala para o lado de lá. No outro lado, o campo era maior e melhor e jogavam os mais crescidos. Crescemos com e nas Abadias. Na Figueira há aqueles cujas recordações se centram na praia e há, os outros, como nós, para quem a memória mais viva são as Abadias. Um figueirense tem de ter memória das Abadias. Os da praia são apenas figueirenses
do verão.
Hoje, pais e filhos jogam em campos pavimentados, com balizas a sério. Fazem exercícios em equipamentos espalhados pelo jardim e já não usam as árvores ou os saltos da vala… Há formas de desenvolvimento que não trazem necessariamente progresso. Ou talvez seja apenas a nossa nostalgia. Quando olhamos para as Abadias hoje já só vemos um livro em branco. Falta o colorido
que as pessoas lá faziam…

Entrevista: o Parque das Abadias visto por uma menina de 6 anos

Se fosses Presidente da Câmara o que fazias nas Abadias?
Construía uma coisa nova. Um parque novo para as crianças irem.

O parque que lá está não é bom?
Não. Está estragado, cheio de lama.

Mas isso é quando chove.
Sim, mas acho que aquilo não presta! Tem teias de aranha.

O que é que fazias mais?
Punha um escorrega novo, um baloiço novo, mais divertido, que desse para quatro. E punha um novo para os bebés.

E mais?
Construía um parque de diversões. Com carrossel, que andava às voltas e às voltas e às voltas! E um escorrega.

E piqueniques? Gostas de fazer lá piqueniques?
Sim! Dá para fazer piqueniques. E até podíamos fazer um concurso para ver quem rebolava melhor na relva!

Fazias mais coisas?
Punha uma casa na árvore para cada criança. Podem pôr lá o nome e depois trocam o nome.

E quem é que construía essa casa?
Quem quisesse ajudar, podia construir! Com várias crianças, em grupo. E podiam pintar de várias cores. As cores do arco íris.

E essas casas o que tinham lá dentro?
Nada. Mas só que as crianças podiam lá pôr o que já não usavam em casa e queriam muito pôr lá na casa. E as crianças podiam pintar a árvore.

Mas assim as árvores podem morrer…
As crianças põem mais árvores. E os adolescentes também. Até os polícias e os bombeiros e os presidentes. Era giro.

E fazias mais alguma coisa nas Abadias?
Sim. Como está lá uma coisa de médicos…

Uma coisa de médicos?
Sim. Da doutora.

Ah, da Doutora Lourdes?
Sim. Ao pé da doutora nós pintávamos aquelas barras para as crianças não saírem… pintávamos de cada cor e podíamos escrever lá sentimentos. E também podíamos construir umas Abadias novas.

Umas Abadias novas?
Sim. Não se chamavam Abadias agora. Chamava-se Parque de Diversões porque vão estar lá muitas coisas para as crianças.

Mas podia chamar-se Parque de Diversões Abadias.
Sim, é isso!

O peculiar sentido de humor da publicidade responsável

A empresa que venceu o concurso de publicidade exterior da Figueira da Foz, para além de mostrar uma incrível pujança em plantar pela cidade uma assustadora centena de outdoors em formato monstro-perneta, oferece-nos um extraordinário momento, do mais belo e refinado humor urbano que tem passado pelos nossos olhos.

Agradecemos a deixa. Alertamos, no entanto, que a laranja que temos visto por aí não se tem apresentado em grandes condições. E numa altura em que a rosa se confinou ao seu estado mais murcho, não podemos deixar de perguntar: mas que cor nos pode salvar?

11 motivos para ir ao quiosque buscar o último Palhinhas

  1. Porque nos conta a história do nascimento das Abadias, acompanhada pelo projecto original e por uma maravilhosa vista aérea do ano de 1939.
  2. Porque mostra-nos as Abadias através da análise atenta e concisa de João Vaz e Luis Pena.
  3. Porque dá a conhecer a “Memória das Abadias”, pela escrita de António Augusto Menano.
  4. Porque nos empresta a carreira e as palavras de Ticha Penicheiro sobre a sua nomeação para o Hall of Fame, ela que viveu a infância em frente ao Parque das Abadias.
  5. Porque conta a deliciosa história do Festival de Poesia Viva de 1987, pelos olhares do poeta Fernando Aguiar e do então menino José Luís Sousa.
  6. Porque nos oferece as memórias dos irmãos Miguel e Pedro Poiares Maduro, sobre o que era viver o Parque das Abadias nos anos 70 e 80.
  7. Porque nos surpreende com a boa disposição com que as crianças da Escola das Abadias aceitaram o desafio de falar e desenhar sobre o seu Parque das Abadias.
  8. Porque nos ajuda a entender as ideias que estão por trás do livro “Homens de Pó”, pelas palavras do seu autor, António Tavares.
  9. Pelos bonitos poemas de João Pedro Mésseder, muito bem acompanhados pelas ilustrações de Rachel Caiano.
  10. Porque nos prende com os belos textos de Catarina Maia, Sara Figueiredo Costa, José António Gomes e José de Matos-Cruz.
  11. E porque está a contribuir para que um jornal lançado por gente bonita e de forma perfeitamente altruísta, possa continuar a mostrar ao mundo em geral e aos figueirenses em particular uma visão mais descontraída e reboliça sobre as coisas, pessoas e sítios que nos rodeiam.

PARA RECEBER O PALHINHAS:

Editorial #53

Se hoje, em pleno coração da cidade, a Figueira da Foz exibe um quadro pintado com um magnífico parque verde, tal deve-se a uma feliz conjugação de factores: a vontade dos figueirenses, a ousadia do seu presidente Coelho Jordão e o toque visionário da dupla Alberto Pessoa / Gonçalo Ribeiro Telles.

É pois nosso dever, como herdeiros de tão grandioso espaço, prestar homenagem a todos os que positivamente contribuíram para o seu erguer. Como? Cuidando, preservando, respeitando, usufruindo, dinamizando. Só assim será possível cumprir o desígnio que Pessoa e Ribeiro Telles definiram para o Vale das Abadias: que as extensas áreas verdes não fossem tratadas como grandes jardins, tornando-os economicamente inviáveis, mas sim como paisagem ecológica e biologicamente equilibrada.

Atente-se, assim, às palavras deixadas por João Vaz e Luis Pena. Atente-se à inspiração das crianças que connosco colaboraram neste número. E atente-se no vazio de ideias que a autarquia colocou nas nossas questões. Por respeito aos de ontem, aos de hoje, e aos que hão de vir, exige-se um trabalho mais atento, cuidado e dinâmico por parte do município e, simultaneamente, uma maior aproximação do cidadão ao seu maior e mais bonito espaço verde.

Registe-se, em jeito de complemento recomendado de leitura, a Prova Final de Curso do arquitecto figueirense Raúl Saúde, que para além de nos ter auxiliado a contar a história do Vale das Abadias, em conjunto com as sempre prestáveis senhoras da Biblioteca e Arquivo Municipal, se debruçou sobre o trabalho que Alberto Pessoa desenvolveu na Figueira da Foz durante cerca de duas décadas. E perceba-se, que de toda a genialidade e visão que nos proporcionou, pouco mais aproveitámos que o Parque das Abadias.

Respeitemo-lo, então. Para que, pelo menos por ali, se mude o paradigma que se instalou na cidade e que Raúl Saúde tão bem remata nas suas conclusões:

“No crescimento que a cidade nos revela actualmente, não é perceptível uma estratégia global ou uma ideia de conjunto, que era evidente nos estudos propostos por Pessoa. Hoje, irremediavelmente esquecidos entre muitos outros, que se acumulam no pó das prateleiras do Arquivo Municipal.”