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O Palhinhas

Entrevista: o Parque das Abadias visto por uma menina de 6 anos

Se fosses Presidente da Câmara o que fazias nas Abadias?
Construía uma coisa nova. Um parque novo para as crianças irem.

O parque que lá está não é bom?
Não. Está estragado, cheio de lama.

Mas isso é quando chove.
Sim, mas acho que aquilo não presta! Tem teias de aranha.

O que é que fazias mais?
Punha um escorrega novo, um baloiço novo, mais divertido, que desse para quatro. E punha um novo para os bebés.

E mais?
Construía um parque de diversões. Com carrossel, que andava às voltas e às voltas e às voltas! E um escorrega.

E piqueniques? Gostas de fazer lá piqueniques?
Sim! Dá para fazer piqueniques. E até podíamos fazer um concurso para ver quem rebolava melhor na relva!

Fazias mais coisas?
Punha uma casa na árvore para cada criança. Podem pôr lá o nome e depois trocam o nome.

E quem é que construía essa casa?
Quem quisesse ajudar, podia construir! Com várias crianças, em grupo. E podiam pintar de várias cores. As cores do arco íris.

E essas casas o que tinham lá dentro?
Nada. Mas só que as crianças podiam lá pôr o que já não usavam em casa e queriam muito pôr lá na casa. E as crianças podiam pintar a árvore.

Mas assim as árvores podem morrer…
As crianças põem mais árvores. E os adolescentes também. Até os polícias e os bombeiros e os presidentes. Era giro.

E fazias mais alguma coisa nas Abadias?
Sim. Como está lá uma coisa de médicos…

Uma coisa de médicos?
Sim. Da doutora.

Ah, da Doutora Lourdes?
Sim. Ao pé da doutora nós pintávamos aquelas barras para as crianças não saírem… pintávamos de cada cor e podíamos escrever lá sentimentos. E também podíamos construir umas Abadias novas.

Umas Abadias novas?
Sim. Não se chamavam Abadias agora. Chamava-se Parque de Diversões porque vão estar lá muitas coisas para as crianças.

Mas podia chamar-se Parque de Diversões Abadias.
Sim, é isso!

O peculiar sentido de humor da publicidade responsável

A empresa que venceu o concurso de publicidade exterior da Figueira da Foz, para além de mostrar uma incrível pujança em plantar pela cidade uma assustadora centena de outdoors em formato monstro-perneta, oferece-nos um extraordinário momento, do mais belo e refinado humor urbano que tem passado pelos nossos olhos.

Agradecemos a deixa. Alertamos, no entanto, que a laranja que temos visto por aí não se tem apresentado em grandes condições. E numa altura em que a rosa se confinou ao seu estado mais murcho, não podemos deixar de perguntar: mas que cor nos pode salvar?

11 motivos para ir ao quiosque buscar o último Palhinhas

  1. Porque nos conta a história do nascimento das Abadias, acompanhada pelo projecto original e por uma maravilhosa vista aérea do ano de 1939.
  2. Porque mostra-nos as Abadias através da análise atenta e concisa de João Vaz e Luis Pena.
  3. Porque dá a conhecer a “Memória das Abadias”, pela escrita de António Augusto Menano.
  4. Porque nos empresta a carreira e as palavras de Ticha Penicheiro sobre a sua nomeação para o Hall of Fame, ela que viveu a infância em frente ao Parque das Abadias.
  5. Porque conta a deliciosa história do Festival de Poesia Viva de 1987, pelos olhares do poeta Fernando Aguiar e do então menino José Luís Sousa.
  6. Porque nos oferece as memórias dos irmãos Miguel e Pedro Poiares Maduro, sobre o que era viver o Parque das Abadias nos anos 70 e 80.
  7. Porque nos surpreende com a boa disposição com que as crianças da Escola das Abadias aceitaram o desafio de falar e desenhar sobre o seu Parque das Abadias.
  8. Porque nos ajuda a entender as ideias que estão por trás do livro “Homens de Pó”, pelas palavras do seu autor, António Tavares.
  9. Pelos bonitos poemas de João Pedro Mésseder, muito bem acompanhados pelas ilustrações de Rachel Caiano.
  10. Porque nos prende com os belos textos de Catarina Maia, Sara Figueiredo Costa, José António Gomes e José de Matos-Cruz.
  11. E porque está a contribuir para que um jornal lançado por gente bonita e de forma perfeitamente altruísta, possa continuar a mostrar ao mundo em geral e aos figueirenses em particular uma visão mais descontraída e reboliça sobre as coisas, pessoas e sítios que nos rodeiam.

PARA RECEBER O PALHINHAS:

Editorial #53

Se hoje, em pleno coração da cidade, a Figueira da Foz exibe um quadro pintado com um magnífico parque verde, tal deve-se a uma feliz conjugação de factores: a vontade dos figueirenses, a ousadia do seu presidente Coelho Jordão e o toque visionário da dupla Alberto Pessoa / Gonçalo Ribeiro Telles.

É pois nosso dever, como herdeiros de tão grandioso espaço, prestar homenagem a todos os que positivamente contribuíram para o seu erguer. Como? Cuidando, preservando, respeitando, usufruindo, dinamizando. Só assim será possível cumprir o desígnio que Pessoa e Ribeiro Telles definiram para o Vale das Abadias: que as extensas áreas verdes não fossem tratadas como grandes jardins, tornando-os economicamente inviáveis, mas sim como paisagem ecológica e biologicamente equilibrada.

Atente-se, assim, às palavras deixadas por João Vaz e Luis Pena. Atente-se à inspiração das crianças que connosco colaboraram neste número. E atente-se no vazio de ideias que a autarquia colocou nas nossas questões. Por respeito aos de ontem, aos de hoje, e aos que hão de vir, exige-se um trabalho mais atento, cuidado e dinâmico por parte do município e, simultaneamente, uma maior aproximação do cidadão ao seu maior e mais bonito espaço verde.

Registe-se, em jeito de complemento recomendado de leitura, a Prova Final de Curso do arquitecto figueirense Raúl Saúde, que para além de nos ter auxiliado a contar a história do Vale das Abadias, em conjunto com as sempre prestáveis senhoras da Biblioteca e Arquivo Municipal, se debruçou sobre o trabalho que Alberto Pessoa desenvolveu na Figueira da Foz durante cerca de duas décadas. E perceba-se, que de toda a genialidade e visão que nos proporcionou, pouco mais aproveitámos que o Parque das Abadias.

Respeitemo-lo, então. Para que, pelo menos por ali, se mude o paradigma que se instalou na cidade e que Raúl Saúde tão bem remata nas suas conclusões:

“No crescimento que a cidade nos revela actualmente, não é perceptível uma estratégia global ou uma ideia de conjunto, que era evidente nos estudos propostos por Pessoa. Hoje, irremediavelmente esquecidos entre muitos outros, que se acumulam no pó das prateleiras do Arquivo Municipal.”

Devolvam-nos a Serra!

A Serra da Boa Viagem, juntamente com mar e rio, engloba o triângulo mágico que a excelentíssima natureza decidiu retirar da sua cartola de truques, preenchendo um cenário absolutamente ímpar sobre a costa portuguesa.

Todo o destaque que possa merecer da nossa parte será sempre escasso: nunca haverá espaço suficiente para homenagear tão belo pedaço de terra. Através da publicação “Arborização da Serra da Boa Viagem (subsídios para a sua história) 1911-1924”, de Manoel Alberto Rei, partimos à descoberta da história da serra como espaço verde.

Deparámos-nos com um homem que, graças à sua sabedoria, visão e persistência, desenhou e pintou de traço sublime o que antes não passava de “uma montanha árida e pedregosa”. Percebemos que a sua obra deverá ser respeitada, homenageada, cuidada, preservada, eternizada. Fomos tentar compreender o que é hoje a Serra da Boa Viagem, depois de todas as intempéries que sofreu ao longo dos anos, dos incêndios de 1993 e 2005, às tempestades de 2013 e 2018. Falámos com quem conhece a serra, respira a serra, vive a serra, e que nos deixaram valiosos testemunhos do hoje e do amanhã. Tentámos perceber, sem sucesso, a razão ou razões pelas quais é tão difícil empreender com a celeridade que se exige, projectos que visem capacitar a serra das valências que um espaço desta grandiosidade exige, desde a mais simples sinalética até ao mais complexo troço de enduro.

A Serra da Boa Viagem não deverá, desta forma, continuar a ser gerida pelo ICNF numa vertente mais economicista que ambiental. Exige-se mais abertura, mais transparência e uma visão muito mais prática. Concluímos que está na altura de seguir exemplos de sucesso de outras regiões. Sem entraves, sem desculpas e sem burocracias. Em memória de Manoel Alberto Rei e por respeito às gerações vindouras, que marquemos o início da limpeza que se exige neste pós-Leslie como o primeiro passo para uma Serra da Boa Viagem de todos e para todos.

Editorial de O Palhinhas #53

Entrevista com o 1.211, por António Amargo

Fomos encontrar o 1.211 na rua Dr. Calado, 74, na Garage Central, do Antonio Heleno… O 1.211 não é nenhum guarda civico, nem recruta recentemente encorporado:

– é um automóvel de aluguer, cujo nome de baptismo é Flirt. O meu caro amigo conhece bem a Serra da Boa Viagem? O 1.211 deu uma buzinada de troca:

– Ora essa! Conheço-a tão bem como as minhas proprias engrenagens, como as minhas porcas, como o meu motor, como os meus pneumaticos, como os meus travões…

– Suponha então você que me apetecia dar um passeio até lá acima. Dizem-me maravilhas da Serra queria saber o que há por lá que seja digno de se ver. O Flirt abriu o escapo livre da sua eloquência e começou a descrever, na sua linguagem natural de tantos kilómetros á hora:

– Chegados ao alto da Serra, seguimos na direcção do poente; visitamos sucessivamente as pitorescas fontes do Covão e da Espinheira e a curiosa fonte de Santa Marinha, para a qual se desce por sucessivos lanços de escadaria, artisticamente dispostos.

– E a agua?

– Excelente de paladar e tão fresca como se viera de atravessar um frigorífico instalado no ventre da montanha… Depois, sem um solavanco pela estrada lisa, eu transporto o turista até ao Alto da Vela, o ponto culminante da Serra. Espraiando a vista para o sul, avista-se em dia claros o pinhal de Leiria, Monte Real, Monte Redondo, a cidade de Leiria com o recorte negro do seu castelo mourisco, o farol de S. Pedro de Muel, e no mar as manchas pequenas, que são as Berlengas, como dorsos escuros e indeciosos de animaes marinhos.

Que linda comparação! Ali perto da Vela, um pouco mais abaixo, mas num lindissimo ponto de vista a cavaleiro de Buarcos e da sua formosa enseada, é que se anda a construir o Pavilhão de Turismo, projecto do distinto arquitecto sr. Raul Lino e destinado á instalação dum serviço esmerado de restaurante. Retrocedendo depois, visita-se o Covão das Figueirinhas, onde existe, soberbo de frescura frescura e viço, um magnífico massiço de cedros, ponto entre todos designado naturalmente para lanches ou para piqueniques. Depois, Santo Amaro…

– Pela Pampulha?…

– Nada de fazer blague:
– Santo Amaro é uma capelinha antiquissima, em cujas paredes ennegrecidas pelo tempo todo o visitante tinha a mania de deixar o seu nome esculpido a canivete.

De ali partimos para a Bandeira, outro ponto de vista admiravel e de panoramas totalmente diversos dos da Vela. Vê-se a nossos pés a Murtinheira, mais lange Quiaios e as suas dunas. Em dias limpidos avista-se o farol de Aveiro e para o nascente a mancha clara das casas de Coimbra e o negrume das serras do bussaco, do Caramulo e da Estrêla. Para o sul, Soure, Pombal, Leiria.


Tendo admirado a paizagem, descemos ao Vale da Urraca, enriquecido com a plantação de 30.000 árvores exóticas e onde de aqui por alguns anos se erguerá uma explêndida floresta.

Depois finalmente, toma-se à direita pela estrada Quiaios-Figueira, observando neste trajecto os belos massiços de pinheiros bravos e mansos – e regressa-se tranquilamente á Figueira, após umas horas de agradável prazer corporal e espiritual.

– Muito agradecidos pelas informações…

Mas o 1.211, por despedida, diz-nos ainda: Escreva lá no seu «Europa» esta grande verdade:

– vir á Figueira e não vêr a Serra da Boa-Viagem é precisamente o mesmo que ir a Roma e não ver o Papa…


in Revista Europa, Ano I, n.º 4 de 1 de Junho de 1925

Serra da Boa Viagem, Sua Excelência! A História

Será necessário recuarmos alguns milhões de anos para percebermos como surgiu aquela que é hoje conhecida como Serra da Boa Viagem. Pouparemos o leitor, no entanto, de tamanho aborrecimento pré-histórico. Assumamos simplesmente que um conjunto aleatório de movimentos tectónicos se encarregaram de formar a nossa amiga lá de cima, conferindo-lhe uns elegantes 262 metros de altura. E avancemos então no tempo, que o papel é escasso. Deixemos também as explorações de carvão (início em 1750) para outras núpcias e coloquemos o calendário no ano de 1911. E agora sim, memorize este nome: Manoel Alberto Rei.

Manoel Alberto foi Rei de apelido e Rei na forma como conduziu o processo de arborização daquilo que era, à data, e segundo palavras do próprio, que não nos atrevemos a questionar, “uma montanha árida e pedregosa, onde vegetavam a urze e o tojo”. Regente florestal na área da Figueira da Foz, assume-se como o “homem que descobriu geograficamente a Serra da Boa Viagem”, arrogância que temos o dever de desculpar sem hesitações. Rei inicia em 1911, depois de levantamento exaustivo, uma campanha pela arborização de todos os baldios do concelho. Primeiro na imprensa local e posteriormente junto da Comissão Administrativa da CMFF, facilmente fez vencer a ideia dos altos benefícios que adviriam para a Figueira da Foz. A sua força mobilizadora foi de tal ordem, que o primeiro comício sobre o tema juntou cerca de 500 pessoas sem televisão e internet no Teatro de Quiaios, num belo dia de Novembro. Ao longo dos meses seguintes, demonstrou a utilidade dos povos submeterem ao regime florestal os seus baldios e no início de 1913 lavrou-se a acta da entrega do Prazo de Santa Marinha (uma área que vai desde a casa da vela perto do Abrigo da Montanha, passa a Capela de Santo Amaro, até à Bandeira) ao regime, ressalvados os direitos, usos e costumes dos povos, para no final do mesmo ano se darem início os trabalhos de arborização da serra.

Apesar das burocracias inerentes ao processo, tudo corria sobre rodas. Mas estas histórias têm sempre um mas. E o mas desta história diz-nos que a Empresa do Cabo Mondego, concessionária da exploração do sub-solo, convenceu-se que o solo também lhe pertencia e resolveu embargar os trabalhos. Sim, parece que na altura já havia quem não fosse grande apreciador do verde. Seguiu-se uma luta que Rei apelida de violenta. Apesar de não termos conhecimento de murros e pontapés de parte a parte, envolveu ameaças e cartas anónimas. A batalha desenrolou-se na justiça. Manuel Rei colocou todos os documentos históricos em cima da mesa, onde ficamos a saber que em tempos idos, os Crúzios (frades) de Coimbra venderam por cento e sessenta mil reis o terreno do Prazo de Santa Marinha a D.Maria I, “com a condição do povo de Quiaios poder cultivar terras, apascentar gado, colher lenha e roçar mato”. A persistência de Rei (1)
revelou-se fundamental. Depois de provar inequivocamente que os terrenos pertenciam à freguesia de Quiaios, e esgotados todos os recursos dos queixosos, foi preciso esperar até Junho de 1915 para a arborização se iniciar sem entraves.

A arborização da SRB impõe-se, e se alguns retrógrados se regozijam, dizendo que ali não se semeará mais um pinhão ou plantará uma árvore, fiquem sabendo que a sementeira e plantações continuam e continuarão em benefício público.”

Entre culturas e construções, de Fevereiro de 1913 a Junho de 1924, gastaram-se 167.147$14 em 284 hectares, onde se plantaram 73 diferentes espécies, da Abies Brachyphylla à Quercus Suber, concluindo assim tão ambiciosa arborização. Passemos pois a palavra a tão importante personalidade no despoletar da história da Serra da Boa Viagem. Senhoras e senhores, Manuel Alberto Rei:

“Foi árdua e violenta a luta em que me empenhei sem desfalecimentos nem tibiezas, apesar de todas as ameaças de transferência e dos mal contidos despeitos que explodiam em cartas anónimas (…) Era um crime deixar desnudos e ao abandono aqueles terrenos tão férteis (…) E o milagre fez-se. A Serra inculta e bravia é hoje, com suas estradas amplas e com o seu soberbo revestimento florestal, um dos mais belos aprazíveis pontos de turismo que possuímos no país (…) Das sete fontes brotam águas magníficas, nascidas em grandes camadas de areia e carvão, que as filtram e tornam excelentes (…) O primeiro passo está dado. De todos os pontos de vista, dois, porém, se destacam pela riqueza das paisagens que deles se disfrutam: a Vela e a Bandeira. Do alto da Vela, olhando para poente, vemos o Oceano Atlântico; para o sul, a foz do Mondego e, em dias claros, avistam-se as Berlengas, os pinhais das Costa de Lavos, da Leirosa, do Urso e de Leiria, a povoação de Monte Real, a vila de Pombal e a cidade de Leiria. Do alto da Bandeira, para o norte, vemos o Farol de Aveiro e as dunas de Quiaios, de Cantanhede, de Mira, de Vagos e da Costa Nova; para o nascente estende-se toda a planície que vai morrer nas abas da Serra do Bussaco, avistando-se a Serra do Caramulo, a da Lousã a de Coimbra e todo o curso sinuoso do Mondego, desde a Figueira até lá. Todos se extasiam ao falar das belezas naturais que se admiram no estrangeiro, quando o nosso país possui algumas que, como estas, suplantam muitas tão apreciadas. É necessário que nós, portugueses, tenhamos mais amor à nossa Pátria e que façamos toda a propaganda possível das paisagens de maravilha com que a natureza prodigamente a dotou e que não são inferiores às que lá por fora tão apregoadas são.
Figueira da Foz, 1924.